segunda-feira, 11 de abril de 2011

O golpe do monge – II


De manhã bem cedinho eu gosto de sair para caminhar na beira do rio, enquanto o sol ainda não está muito forte e a temperatura está “fresca”.

Há muito tempo não via os mongezinhos de trajes cinza andando por aí. Hoje me deparei com dois. O primeiro, andava calmamente na beira do rio, em silêncio. Quase passou despercebido.

O segundo estava no Clarke Quay abordando um casal de velhinhos muito simpáticos que já estavam abrindo a carteira para dar dinheiro para o falso monge. Eu, que já estava caminhando rápido, apertei o passo afim de interromper a transação.

Cheguei perto já falando para eles não darem dinheiro para o monge porque se tratava de um golpe. Mesmo surpreso o senhor não desconfiou de mim e já guardou o dinheiro de volta na carteira. Eu olhei bem para o falso monge e falei “SHAME ON YOU” ("você devia ter vergonha!"). Ele foi se afastando sem protestar, tentando disfarçar que tinha sido pego no pulo.

Se eu tivesse um celular naquele momento teria ligado para a polícia.  Os senhores agradeceram muito o aviso, e uma singapureana que acompanhou tudo à distância confirmou que se tratava de um golpe.

Durante esse confronto meus batimentos cardíacos, controlados por um frequencímetro, foram a milhão. Nem quando eu corro eles sobem tão rápido.

Por sorte logo em seguida me deparei com um policial, e não hesitei em relatar o que tinha acabado de acontecer. Ele me agradeceu e já pegou o rádio para tomar providências. E eu continuei caminhando, bufando, morrendo de raiva dos monges abusadores de ocidentais, mas com o sentimento de justiça sendo feita.

Na volta da minha caminhada, pela outra margem do rio, vi os dois monges de novo. Não sei se a polícia conseguiu encontrá-los ou não, mas também não quis parar pra perguntar.

Quando estava quase chegando em casa, encontrei mais um casal de velhinhos sorridentes e inofensivos (obviamente turistas) e não resisti: tive que alertá-los para o golpe do monge de cinza. Eles ficaram muito agradecidos pelo aviso, e eu continuei minha caminhada, me sentindo “a Justiceira do Rio”.

Minha vontade é montar acampamento no calçadão à beira do rio para alertar todo mundo sobre o golpe. Já percebi que os locais não interferem (imagino que por razões culturais, principalmente para evitar confrontos) – quando aconteceu comigo eu estava sentada em um bar e a garçonete não fez nada para impedir que eu desse dinheiro ao falso monge, apesar de saber muito bem que se tratava de um golpe.  E hoje a menina que veio confirmar o que eu dizia ao casal viu muito bem o que estava prestes a acontecer, mas preferiu não interferir (o que eu não entendo, mas enfim... diferenças culturais existem e devem ser respeitadas).

Para quem não leu o post anterior, explico:

O golpe do monge budista, já bem conhecido por aqui, tem como alvo principal ocidentais (principalmente turistas). Um monge com trajes cinzas aborda as pessoas com uma foto de um templo budista em construção e diz que está arrecadando dinheiro para poder finalizar a obra. Eles não falam muito bem inglês (os locais dizem que eles são estrangeiros – da China, provavelmente), portanto não explicam nada muito bem. Só mostram a foto, pedem dinheiro, e depois fazem com que você escreva seu nome e país de onde é (imagino que para contabilizar o país com o maior número de otários que caem no golpe deles no final do dia).

Imagino que o alvo desse golpe sejam ocidentais porque nós não sabemos nada sobre budismo e os costumes locais, e eles se aproveitam da nossa ignorância e respeito à religião deles. Alvo fácil.

Sei que é estranho para quem acaba de chegar ou está de passagem, e sei que somos brasileiros e deveríamos estar “treinados” para esse tipo de coisa, mas quando se pode esperar que um MONGE te ROUBE em SINGAPURA, um dos países mais seguros do mundo?

É triste, mas acontece. Como dizem por aqui, “low crime doesn’t mean no crime” (baixa criminalidade não significa nenhuma criminalidade).