segunda-feira, 29 de março de 2010

Experiência cinematográfica

Tenho a audição bem sensível, e escuto sons que muita gente nem percebe. Pode até não soar como um problema, mas dependendo da situação eu te garanto que é um problema.

Por exemplo, no cinema. Não supoooorto barulhos no cinema que não venham da tela (a não ser risadas, gritos e suspiros – nos momentos certos, é claro). Barulho de pipoca ininterrupto e gente mexendo em saco plástico fazem meu sangue ferver. Mas o que me tira do sério é gente batendo papo. Quer conversar? Logo ali fora tem um café, compra um chocolate quente, que é até mais barato que o ingresso, e fala tudo que quiser. Mas quem entra na sala de cinema e fica conversando, não pode reclamar quando leva um (ou vários) shiu.

Minha impressão geral de um filme depende muito da experiência. Mesmo sendo um filme incrível, se alguma coisa que alguém na sala fez tiver atingido meu limite, para sempre vou lembrar do filme associado à essa coisa, como por exemplo “aquele Harry Potter em que uma vovó levou o netinho de colo para o cinema e ficou andando e falando com ele pela sala – durante o filme”.

Tenho ido muito sozinha ao cinema – luxos de uma desempregada/freelancer. À tarde costuma ser mais tranquilo, mas mesmo assim me deparo com as amigas adolescentes que não notaram a placa do Starbucks do lado de fora e acharam que fofocar no escurinho do cinema fosse uma boa ideia.

Quando vou com o Steven, ele também fica nervoso. Não porque os barulhos dos outros o incomodam, mas por perceber quando estou ficando incomodada e, pior, irritada. Na fase do incômodo só solto olhares ferozes. Na fase da irritação é que começam os shius. E ele já está acostumado com isso e também já aprendeu a olhar feio pras pessoas – talvez num esforço de impedir que a fase dos “shius” comece.

E como esse final de semana ele está viajando, acabei indo três dias seguidos no cinema sozinha – sempre à tarde, porque por mais que não me importe de ir sozinha ao cinema, sábado à noite já é um pouco demais.

No domingo, ao saber que ele só chegaria de noite, resolvi pegar mais um filminho. Comprei o ingresso online, corri pro shopping com meu copinho do Starbucks e meu casaquinho (extremamente necessário nesse país, onde as salas de cinema são praticamente câmaras frigoríficas) e só quando estava na fila para pegar o óculos 3D percebi o erro que estava cometendo: entrar numa sala de 300 lugares para assistir “Como treinar seu dragão” num domingo à tarde.

Das 300 cadeiras, metade estava ocupada por crianças. E não eram pré-adolescentes, não, eram daquele tamanho que precisa pegar o banquinho na entrada da sala. Já sentada na minha cadeira, estrategicamente posicionada entre duas criancinhas fofas, fiquei refletindo se deveria ir embora ou não. Resolvi encarar a situação como um desafio e uma oportunidade de exercitar minha tolerância.

Até que não foi tão difícil – não tanto quanto eu esperava. Sabia que era eu quem estava errada naquele cenário. Me preparei para não soltar nem um shiu, nem tsc, mas ainda me permiti revirar os olhos quantas vezes julgasse necessário – ainda mais protegida pelos óculões 3D.

A parte mais difícil foi uma mãe com duas criancinhas atrás de mim. Um deles, que devia ter uns 2 anos, insistia em falar, cantar, etc. Mas isso é natural, ele tem 2 anos e está numa sala escura com um dragão gigante saindo pra fora da tela (realidade em 3D, minha gente) e ele quer mais é fazer outra coisa. Só que, para manter o menino calmo, a mãe ficava conversando com ele. E até que ela falava baixinho, mas com minha audição super sônica eu jurava que ela estava sussurrando no meu ouvido.

Mais de uma vez tive que espichar o olho para ver se ela não estava mesmo falando comigo, de tão claro e próximo que parecia o som. Mas não, ela estava sentada na cadeira dela com os dois filhos no colo.

Go figure. Um amigo já me disse mesmo que eu escuto como um morcego.

Nas horas críticas, quando o sussurro da mãe que teimava em ficar na sala, eu tapava um ouvido. E só. Todos os esforços foram direcionados para o auto-controle e eu não soltei nem um shiu, nem um olhar matador, nem um tsc.

Será que da próxima vez eu já consigo me irritar menos quando alguém ficar conversando durante o filme?

Infelizmente, sei que não. Apesar do sucesso dessa experiência, para efetivamente ver algum resultado preciso de mais sessões de filme infantil num domingo à tarde. E esse, meu amigo, é um erro que não estou disposta a cometer tão cedo.

terça-feira, 23 de março de 2010

Sobre trabalho

Antes que mais alguém pergunte, não abandonei o blog, não. A desculpa da vez não são as visitas, porque desde que minha irmã foi embora não recebemos ninguém – e nem sabemos quando (e quem) vem os próximos.

Ultimamente andava ocupada com a busca por emprego, e porque comecei a fazer alguns trabalhos como freelancer para a empresa de tradução da minha mãe. O último trabalho fui eu quem consegui aqui em Singapura e acabei de traduzir o histórico escolar detalhado de uma amiga fonoaudióloga. Se alguém aí quiser conversar sobre motricidade oral, pregas vocais e distúrbios da voz, é só falar comigo.

E no meio disso tudo, apareceu FINALMENTE uma entrevista de emprego (e nada do típico cafezinho “vamos conversar para saber se tem lugar pra mim na sua empresa” e a resposta mais típica ainda “não temos nada mas foi bom te conhecer”). Participei de um processo que quase me enlouqueceu – tanto por não saber se queria o emprego quando pelo medo – e além das entrevistas fiz uma apresentação de um case e duas provas escritas.

Depois da última fase tinha a impressão que eles tinham gostado de mim mas não sentia que ia conseguir a vaga. Dito e feito, não consegui. Mas confesso que não fiquei arrasada, porque não era o meu emprego dos sonhos, e porque estava tão ocupada com as traduções que não tive tempo de ficar reclamando. NEXT!

Mas no final das contas, foi muito legal ter participado do processo. Finalmente uma empresa respondeu minha carta de apresentação e CV (não sem o empurrãozinho de uma amiga) e tive uma chance real de disputar uma vaga. Aprendi pra caramba e identifiquei algumas coisas que precisam ser melhoradas.

Além disso, nas últimas semanas tanta gente que eu conheço conseguiu emprego que é difícil não ver a luz no fim do túnel. No ano passado me falaram “depois do ano novo chinês as coisas começam a acontecer” mas não dei muita importância. Foram tantas aplicações sem resposta, tantos emails que caíram no buraco negro das empresas de recrutamento, que eu já não tinha lá muitas esperanças. Mas realmente, depois do ano novo chinês vários conhecidos começaram a fazer entrevistas de novo, muita gente já assinou contrato, outras estão podendo até escolher entre dois empregos...

Enfim, as coisas melhoraram mesmo, e muito. Agora é só continuar fazendo tudo direitinho e torcer para a minha sorte mudar!

quarta-feira, 3 de março de 2010

Ano Novo Chinês

O Ano Novo Lunar (ou Ano Novo Chinês ou Festival da Primavera) é o mais importante feriado para os chineses, e tem início no primeiro dia do primeiro mês lunar – que esse ano caiu no dia 14 de fevereiro (junto com o Carnaval no Brasil e o Valentine’s Day no hemisfério norte). Essa época é repleta de rituais, e como em Singapura a maioria da população é de etnia chinesa, todo mundo acaba entrando na dança.

Trata-se de uma comemoração familiar, e muita gente viaja para visitar os parentes. A decoração em todos os lugares é predominantemente vermelha, porque acredita-se que vermelho afasta a má sorte. Chinatown estava inteirinha decorada e bombando o mês inteiro, com feiras e lojas vendendo itens tradicionais do Ano Novo como: laranjas e envelopes vermelhos (que são os presentes típicos: deve-se dar duas laranjas e/ou um envelope vermelho com dinheiro para amigos e familiares), e tigres para todos os lados – já que 2010 é o ano do tigre.

Mas são tantas crenças e superstições que fica difícil contar num único post (e eu nem conheço todas, até porque passamos o Ano Novo Chinês na Malásia esse ano). Mas uma das coisas mais marcantes que eu vi foi a Dança do Dragão (ou Leão), que acontece até o fim do ano novo (que dura 15 dias). Nessa dança, um grupo de pessoas passa carregando um dragão e tocando música - e ficam se revezando para os que ficam no dragão não cansarem demais. Os grupos que vi tinham dois homens dentro de cada dragão, mas li que pode chegar até 50 pessoas. Os tipos de dragão ou leão também são diferentes, mas o importante é que a performance deve seguir uma coreografia sincronizando a cabeça e o rabo, de acordo com o ritmo dos tambores. Quando mais barulho eles fizerem, melhor. A dança simboliza o papel histórico das criaturas e demonstra poder e dignidade, mas principalmente acredita-se que dragões trazem boa sorte. Por isso durante dias, onde quer que fosse, eu via uma turma do dragão correndo pra cima e pra baixo, chacoalhando aquela cabeçorra com cara de poucos amigos e fazendo muito barulho, espalhando boa sorte por aí. Difícil não lembrar do samba do crioulo doido.

Seguindo os costumes locais, a empresa do Steven também contratou um grupo, e semana passada eles foram no escritório com dois dragões e muitos tambores.

Informado pelos colegas locais sobre a tradição, ele já tinha deixado em sua mesa duas laranjas e um envelope vermelho, que a trupe passou coletando. As laranjas entravam pela boca do dragão e saíam descascadas (e era casca pra todo lado), mas o dinheiro não voltava descascado, não.

Empolgada com a possibilidade de atrair mais boa sorte, até tentei entrar no clima da comemoração. Num shopping fiquei seguindo a turma do dragão discretamente, mas acabei desistindo com medo que alguém me mandasse pra debaixo do dragão para que um dos caras pudesse descansar. Achei melhor me limitar aos costumes e superstições que eu já tenho, que já está de bom tamanho. Se bem que, me conhecendo bem, até o ano que vem é bem possível que eu acabe incorporando mais alguma coisa...

Vejam um videozinho da performance no escritório (apesar de curto dá pra ter noção do barulho que eles fazem):
video