quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Atendimento hospitalar

Semana passada estava em casa fazendo nem me lembro mais o quê, só lembro que sentia calor e por isso resolvi abrir a porta de correr da varanda.

Distraída, empurrei a porta com toda força, mas esqueci de retirar um dedo do caminho. Com isso, o pobre dedo primeiro foi esmagado para entrar no inexistente vão entre as portas, para depois ser esmagado mais uma vez na saída.

Não acho que preciso falar aqui sobre a dor que eu senti. Até porque com a descrição do ocorrido aposto que já tem gente morrendo de aflição. Portanto, pouparei-os dos detalhes e aproveito também para pular o capítulo em que eu vou buscar gelo e desmaio no chão da cozinha.

Acidentes domésticos acontecem (ultimamente com mais frequência que o normal, mas afinal de contas tenho passado mais tempo em casa do que nunca) e o importante é saber lidar com eles.

Mas nesse dia, não soube lidar nem um pouco com o problema. Eu tentei, mas o desmaio permitiu que o desespero tomasse conta de mim. Liguei para o Steven, aos prantos, que veio correndo pra casa me buscar para levar para o hospital.

A dor era tanta que eu achei que tivesse quebrado o dedo.

Já na recepção do hospital, tentava manter a calma na fila e no atendimento lerdo. No balcão, vejo a seguinte plaquinha: “em caso de dor extrema, favor informar”. Me peguei pensando que, se as pessoas têm diferentes níveis de tolerância à dor, o que qualifica uma dor extrema? Sangue? Ossos à vista? De qualquer maneira, não sei se iam acreditar que uma mulher do meu tamanho prendeu o dedo na janela e agora estava dando show na recepção do pronto socorro.

Odeio drama, e mesmo sendo uma boa Penélope, tudo tem limite.

Mordi os lábios e fiquei lá esperando minha vez. Expliquei o caso, entreguei o documento, peguei a senha e fui para a sala de espera – que mais parece a de um consultório do que de um pronto socorro.

Minha senha apitou no painel e indicando para a salinha nove. Chegando lá, dei de cara com o médico que atendeu o Steven há uns meses e que ainda deve usar fraldas de tão novinho – ou talvez seja porque os orientais aparentam ser mais jovens do que realmente são. Ele também nos reconheceu e confesso que quase perdi o controle quando ele parou de me examinar para bater papo com o Steven. Helloooo paciente com dor não aguda mas nem por isso deixa de ser dor!

Então o doutor me encaminhou para o raio-x, e meia hora depois eu já estava de volta à sala de espera com o resultado. Mais uma vez minha senha aparece no painel, volto para a salinha nove, o doutor diz que não quebrou, mas que está inflamado e que em casos mais sérios é preciso remover a unha. Assustada, pergunto se meu caso é sério, ele diz que não, então eu faço uma cara de aflição/nojo e peço para que ele faça o favor de me poupar dos detalhes de um procedimento desnecessário. Termino a frase com um sorriso.

Sem entender a piada (a capacidade para entender sarcasmo aqui é limitada, e eu nunca me lembro disso) ele prescreve um antiinflamatório que diz funcionar também para dor e pede que eu coloque a mão numa bacia de água gelada ao chegar em casa.

De receita em mãos, me encaminho para outro balcão, onde deposito os papéis da consulta na caixa de entrada. Volto para a sala de espera, que a essa altura já não me parece mais tão moderna, e fico lá sentada olhando para os outros pacientes e tentando adivinhar o que há e errado com cada um deles até que meus pensamentos sejam interrompidos por um:

- MISS CLÓDIA!

Ah, é, miss Clódia sou eu. Volto para o balcão, pago a taxa de $60 dólares pela consulta + raio-x + remédios, que vêm num saquinho ziploc etiquetado com meu nome e posologia, na quantidade exata para o tratamento recomendado pelo médico.

Acho aquilo tudo muito eficiente, e apesar de estar com raiva de todos os funcionários por eles serem meio lerdos e por desconfiar que eles nem se lembram da existência da plaquinha sobre dor extrema, penso como é incrível poder sair do hospital e ir direto pra casa, sem ter que parar na farmácia e comprar mais comprimidos do que o necessário.

Já em casa, sigo as ordens do tio e meto a mão na bacia congelante, vendo Grey’s Anatomy na tevê e comparando o atendimento médico de Hollywood x Singapura.

Agora só me resta pintar todas as outras nove unhas das mãos de preto e esperar a unha danificada cair. Aí eu pinto novamente as outras nove de cor da pele (ou nude, que é tendência), porque afinal de contas, o importante é estar combinando.

7 comentários:

  1. hahaha - o melhor é o final... acho que você só consegue ser engraçadinha porque a dor já passou!

    Legal isso, de entregarem a quantidade certa de remédio. Se não devemos tomar remédio sem prescrição médica, ficamos com montes de sobras inúteis em casa!
    Interessante a sua experiência, mas podia ter passado sem essa, né?

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  2. má! tadinha de vc!
    Por isso que vc sumiu esses tempos...? não tá conseguindo digitar..hehe
    fique boa logo! (doeu em mim.)
    e ve se responde no skype né..

    beijos e saudades
    carol pira

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  3. Passei por uma dessas anos atrás, só que foi minha máquina fotográfica que caiu de cima do guarda-roupas em cima do meu pé, de quina, sabe? Na hora o pé inchou, não conseguia nem por o pé no chão...Cheguei ao plantão da ortopedia chorando de dor, já me colocaram numa cadeira de rodas...Quem me olhava achava que eu tinha sido atropelada, tamanha era a minha "dor extrema". No raio-x deu só luxação, mas tive que sair engessada...O pior de tudo é a cara do médico tipo "nossa que drama"...
    O bom é que a "dor extrema" passa e ficam as risadas...
    bjs, boa recuperação..rs

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  4. Simplesmente excelente esse relato... concordando com tua irmã, realmente é interessante e inteligente o sistema de saúde com os remédios entregues no próprio hospital na dosagem certa.
    E também concordo que vc não precisava passar por essa...
    Beijos

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  5. Ah, vc se esqueceu de contar da parte em que "teve que ligar pra mamãe pra contar que tinha espremido o dedo na porta". E, a mamãe deu "colinho" à distância!
    já sarou? bjs
    mom

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  6. MC!
    Me parece que experiência em hospital é um requisito obrigatório para expatr. durante o seu primeiro ano longe.
    Já tive a minha. Cai da bicicleta e quebrei o cotovelo aqui em Houston.
    Atendimento ótimo, mas um pouco lerdo no quesito "aguardar para tirar raio-x", mas nem reclamei muito porque o fulano na maca ao lado estava todo estrupiado e (juro!) rezando o Pai-Nosso acada 1 minuto.
    Apesar da dor extrema, aguardei quietinha (sem mencionar meu choro silencioso...)
    O melhor foi a minha amiga-anjo-acompanhante, reclamando non-stop da propaganda enganosa do seriado ER, pois nem um George Clooney do avesso tinha por lá...
    bjs
    Marina (aninha'sis)

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  7. Será que em algum momento alucinado deu saudades do nosso "pronto atendimento" nativo? Eu duvido mmuuiittoo!!!!!

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