quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Paladar

Comer para mim é um dos grandes prazeres da vida. Adoro sair pra jantar fora, e como vocês estão acompanhando, ando feito umas experiências na cozinha, coisa básicas (que às vezes dão certo, outras não).

Acontece que sempre gostei das coisas mais simples. Não tenho o paladar infantil como algumas pessoas que eu conheço, mas nunca fui muito ousada nas minhas escolhas. Mais de uma vez pedi para mudar alguma coisa no prato porque achava que a combinação não ia me agradar.

Além do mais, quando estou com fome não quero correr o risco de experimentar algo de que não vou gostar. Aí vou gastar dinheiro e continuar com fome, o que não vai me deixar nem um pouco contente.

Mas até pouco tempo atrás eu não comia sushi. Nem rúcula. Aliás, salada de folhas era só alface americana. E aprendi a gostar de tudo isso.

Antes de vir pra Singapura não gostava de curry. Nem frutos do mar. Nem de comida apimentada. Mas a gente se adapta a tudo, e estou abrindo o paladar cada vez mais. Até batizei a iniciativa de projeto “desjacuzação”, que consiste em ser menos preconceituosa com comida, e tentar sempre experimentar coisas novas, inclusive aquelas que antes me faziam torcer o nariz.

Tenho um exemplo recente: no café do lado de casa eles fazem um sanduíche de peito de peru, queijo brie, pimenta, abacaxi e um legume que não me lembro o nome agora. Na primeira vez que comi esse lanche, pedi para tirarem a pimenta e o abacaxi e trocarem o tal legume por alface. Afinal de contas (na mentalidade jacu), Deus me livre pagar por algo que não gosto e continuar com fome.

Mas na segunda vez senti um impulso e sem nem pensar pedi o lanche sem mudar nadinha. “Vou comer a versão original”, pensei comigo.

Sentei para esperar o sanduba e, quando chegou, eu já estava com tanta fome que não hesitei. E não é que era o máximo? Nem levantei o pão para ver que cara tinha o que eu estava comendo. E a cada mordida eu entendia mais e mais porque a pessoa que criou esse sanduíche achou que abacaxi e pimenta seria uma boa combinação.

Comi, gostei, e vou repetir. O plano agora é experimentar pratos locais. Tenho um pouco de receio, porque gosto de saber tudo que tem no prato e aqui isso nem sempre é possível.

Pode ser que leve um tempo até eu criar coragem, tem cada coisa bizarra... Mas sejam pacientes, desjacuzar leva tempo. Uma hora eu consigo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Da cor do pecado

Mesmo em dias de sol é normal ver a rua toda colorida com guarda-chuvas. No começo achava que era para amenizar o calor, até que alguém me explicou que as mulheres asiáticas não querem se bronzear.

E então notei que algumas mulheres orientais do meu prédio vão para a piscina de roupa. Tem uma que nada de blusa de manga comprida e bermuda, e também encapota os filhos para que eles não corram o risco de se bronzear. Biquínis não são muito populares aqui, elas podem até usar 2 peças mas a de cima será tipo uma regata, ou seja quase um maiô. Isso me fez pensar nos padrões diferentes de beleza, e fui pesquisar mais sobre o assunto.

Descobri que aqui há um culto à brancura da pele. Quanto mais clara a pele, mais bonita a mulher – o que, na minha opinião, tem um fundinho de racismo. O conceito de beleza na Ásia é completamente diferente do ocidente. Aqui as mulheres mais apreciadas são magérrimas (ok, isso é igual na maioria dos países), baixas, mignon e bem branquinhas. O oposto das curvas e corpos bronzeados tão apreciados no Brasil.

A indústria cosmética tem um nicho especial na Ásia. Fui pesquisar as maiores marcas de cosméticos e descobri que a Nivea, Dove e L’Oreal têm uma linha de cremes branqueadores.

O branqueamento da pele é um tema polêmico e envolve assuntos como saúde, identidade, mentalidade colonial (as pessoas de raças mistas com pele mais branca tinham situações privilegiadas em relação às mais escuras, por ter trabalhos protegidos dos raios de sol) e racismo. E além do padrão de beleza, é como se as pessoas mais morenas fossem inferiores às brancas, e por isso fazem tudo para evitar o risco de discriminação.

E enquanto nesse lado do mundo as mulheres gastam tubos de dinheiro em produtos que prometem branquear a pele de 1 a 3 tons, imagino o que elas diriam ao saber que no Brasil o que vende mesmo é auto-bronzeador, e que para nós, quanto mais bronzeada, mais saudável e bonita é a pessoa.

É, acho que gosto não se discute mesmo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O primeiro fracasso na cozinha

Longe de mim querer transformar esse espaço num blog de culinária, mas preciso compartilhar minha primeira experiência mal sucedida na cozinha (em Singapura tá, já errei muito no Brasil).

Peguei uma receita toda bacana de frango com cogumelos e queijo no forno, de uma revista singapureana. Acho que era a única receita que não levava algum ingrediente estranho... e como era relativamente simples, resolvi tentar.

De acompanhamento, um básico purê de batatas. Quer coisa mais fácil de fazer?

E adivinha o que deu errado?

Confesso que a vida inteira fiz purê de caixinha. É simples, você ferve a água, abre o saquinho, mistura tudo e pronto: você tem purê. Mas como é industrializado (dizem por aí que natural é melhor) e todo mundo sempre falou que purê era tãããão fácil, achei que estava na hora de tentar.

Pra piorar ainda mais a história, tinha aprendido a fazer purê naquele curso de culinária que fiz no Brasil ano passado. Com a receita do curso em mãos, me pus a descascar batatas. Decidi começar pelo mais fácil, o purê, para depois poder estressar à vontade com o frango.

Descasquei, piquei, fervi, amassei. Fácil. Em seguida, a receita dizia para juntar o leite e bater vigorosamente. Estava seguindo a receita direitinho. E sempre sigo os verbos usados nas receitas ao pé da letra, então se eles diziam que era pra bater vigorosamente quem sou eu pra duvidar.

Bati, bati e bati. E não aconteceu nada. O leite continuava leite e a batata, batata. Só a manteiga fez o favor de derreter. Bati por horas (ok, minutos, mas parecia muito mais) e nada deles se incorporarem. A essa altura eu suava mais que lutador de box no ringue, mas não conseguia parar. Batia tão vigorosamente, que o leite começou a respingar pra todo lado: na parede, no fogão, no chão, no meu braços.

Quando me dei por vencida, tinha batata até no teto da cozinha. Tensa, implorei pro Steven ligar pra mãe dele e perguntar o que eu devia fazer pra tentar salvar o purê.

Estava muito preocupada com o futuro do jantar. Se o purê, que era a coisa “fácil” da refeição, eu consegui estragar, o que seria do meu pobre franguinho? Enquanto ele falava com a mãe, eu continuava batendo, esperançosa. Aumenta fogo, abaixa fogo.

A solução da sogra foi adicionar a mistura do purê de saquinho, que por precaução sempre temos em casa (e pelo jeito vamos continuar tendo). Funcionou, e leite, batata, pó e manteiga finalmente se incorporaram formando o tão desejado purê.

Chegou o momento de fazer o frango. Apesar da frustração com a experiência anterior, a fome e a responsabilidade falaram mais alto, e recuperei forças e ânimo para concluir a missão.

Piquei cebolas e alho com precisão e confiança. Não derramei sequer uma lágrima, tamanha minha determinação. Fiz o que tinha que fazer (não to aqui pra dar receita, o que importa é a experiência), coloquei tudo no forno e 20 minutos depois o jantar finalmente estava pronto.

Para nossa surpresa (sim, a essa altura nem o Steven tinha mais fé) o frango ficou o máximo.

Já o purê.... meio empelotado e sem sal.

Mas pelo menos tinha cara de purê!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Batu Caves

Uma das principais atrações de Kuala Lumpur são as Batu Caves: um templo hindu instalado dentro de uma caverna, a mais ou menos 13km da cidade.

Na verdade são várias cavernas, mas eu só visitei a principal, a Temple Cave, que depois descobri ser o ponto hindu mais popular fora da Índia – atrai 1,5 milhão de peregrinos todos os anos.

Na entrada, uma estátua dourada de 42,7m do Lord Murugan, um deus hindu. Ao lado, uma escadaria de 272 degraus que leva à Temple Cave.

Além de um mínimo preparo físico para encarar a subida, você precisa ter coragem para não se assustar com os vários macacos. Sim, macacos. Dezenas. E eles interagem com os humanos, o que é mais assustador. Eles atormentam principalmente as pessoas que têm comida (cachos de bananas estão à venda na entrada), e são bem agressivos. Ainda bem que nós não tínhamos nada, porque até garrafinha de água eu vi eles roubando.

Enquanto recuperava o fôlego perdido com a subida, vi um cara cobrando para tirar fotos com cobras e iguanas. Mais adiante, duas lojinhas de souvenirs. Pra ser mais turístico que isso só se tivesse um McDonald’s dentro da caverna.

Eu sabia que Batu Caves era um lugar religioso, mas não sabia que era tão turístico. Muita gente que vai lá não tem nada a ver com o hinduismo, com exceção da época do festival Thaipusam, quando hindus do mundo todo vêm celebrar o aniversário do deus Murugan.

O lugar em si é maravilhoso, a caverna é gigantesca. Só acho lamentável que esteja tão mal cuidada, cheia de lixo e mal-cheirosa (pra não falar fedida mesmo). Nunca fui à Índia, mas imagino que seja algo bem parecido, inclusive com os macacos.

Claro, porque os fofos não estão só nas escadas da entrada, eles estão em todos os lugares, correndo entre as pessoas, soltando uns guinchos horríveis. No interior da caverna, contei mais de 20, de todos os tamanhos. Em nenhum momento me senti confortável com aquelas criaturas tão perto da gente, principalmente porque por causa do contato com os turistas, aprenderam a se defender. Estão mais agressivos, perseguem quem tem comida e assustam as crianças. Além do medo de levar um arranhão ou mordida de um macaco, fiquei pensando em histórias para um episódio de House. Fulano viaja a negócios para Kuala Lumpur, é convidado para visitar as Batu Caves e pega alguma doença de macaco que ninguém sabe o que é.

Enquanto eu pensava em como mandar minha ideia para os escritores de House, vejo do nosso lado três chinesas idiotas abrindo uma barra de chocolate para dividir com os macacos, e soltando gritinhos histéricos. Sim, elas deram chocolates para os macacos. Eu nunca pensei que alguém pudesse pensar em fazer isso, mas acho que nunca podemos subestimar a estupidez do ser humano. Quer alimentar os macacos, dê bananas, não uma barra de chocolate com amêndoas! Não segurei a indignação, chamei a atenção das três peruas que obviamente me ignoraram e saíram de perto rapidinho. Fui embora espumando de raiva e 272 degraus depois ainda tive a oportunidade de xingá-las mais uma vez.

Indignações à parte, saí de lá dividida. De um lado, um lugar impressionante, uma caverna gigantesca com uma importância história e religiosa. Do outro, a sujeira, falta de cuidado e o fato de estar completamente entregue ao turismo, sem controle nenhum.

Mas mesmo com todas as críticas, acho que vale a pena. Uma ida a KL não é completa sem uma visita às Batu Caves!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Kuala Lumpur

Final de semana passado foi feriado em Singapura, por conta do National Day. 44 anos de independência, a cidade inteira decorada e a promessa de uma festona. Mas como metade da população, resolvemos aproveitar o final de semana prolongado para viajar.

Decidimos ir para Kuala Lumpur, capital da Malásia, que fica a uns 400km de Singapura. Podíamos ter ido de avião, mas achamos que uma road trip seria mais legal para ver as paisagens e explorar o que desse vontade.

De cara já vimos um problema, porque se tem uma coisa que os malaios fazem mal é dirigir. Preocupação com segurança zero, o importante é chegar primeiro. Ônibus, caminhões, motos, carros, ninguém tem amor à vida.

No primeiro posto de gasolina, a primeira surpresa. Pausa: os mais sensíveis vão me desculpar por que o assunto é escatológico, mas vou tentar ser discreta.

Retomando: abri a portinha do banheiro e dei de cara com isso:



Aí me lembrei que estava num país muçulmano e esse tipo de "toalete" é mais prático para as mulheres com suas vestimentas compridas. Não sei se foi só naquele posto ou se é assim em todo lugar, mas não tinha papel higiênico, e sim um daqueles esguichinhos (à la bidê). Não sei exatamente como funciona, se elas levam uma toalhinha na bolsa ou se deixam secar naturalmente, mas como eu sempre tenho um pacotinho de lenço na bolsa não precisei testar as teorias.

No caminho, florestas imensas só de palmeiras, como nunca tinha visto. Lindo. O problema é que é época de queimada, o que deixa o país inteiro (e os vizinhos, diga-se de passagem) esfumaçado.

Chegamos em KL sem grandes problemas na estrada, mas nos perdemos na cidade com GPS e tudo. Não somos nós que somos incompententes, aquela cidade é uma loucura!

O hotel era super bem localizado, e graças a Deus o banheiro era normal (só tive que fazer malabarismo no chuveiro, projetado para asiáticos, que batia no meu ombro).

Fomos dar uma volta a pé e quase quebrei o pescoço de tanto olhar para as Petronas Towers e lembrar da Catherine Zeta-Jones pendurada na ponte naquele filme (Armadilha??). O prédio é impressionante, e à noite fica todo iluminado.



No sábado exploramos a cidade, fomos na Kuala Lumpur Tower, Merdeka square, Chinatown, Jalan Butik Bintang e todas as atrações “turísticas”. O fato é que KL não é uma cidade turística. Eu falava o tempo todo que se tivessem me levado para lá vendada, ao abrir os olhos teria certeza que estava em São Paulo. Encontrei muitas semelhanças... E vocês já imaginaram um daqueles ônibus turísticos em SP, com o trânsito caótico? Não funcionaria, né? Mas em KL tem.

Como no sábado já tínhamos visto tudo que tinha pra ver, no domingo pegamos o carro e fomos para dois lugares nas redondezas indicados por um amigo que morou em KL: Batu caves e a mesquita Sultan Salahuddin. As Batu Caves merecem um post exclusivo, porque tem muita coisa pra contar. Sobre a mesquista cabe nesse post mesmo.

A Sultan Salahuddin mosque fica um pouco afastada da cidade, mas vale a pena o deslocamento. É uma das maiores do sudeste da Ásia, e também conhecida como mesquita azul. Super bonita por fora, mas não vi por dentro...

Antes de vir para a Ásia tinha pouco contato com o islamismo. Não tinha amigos muçulmanos e a impressão que eu tinha da religião, infelizmente, era só o que a gente vê na TV. Agora tenho amigos muçulmanos que ajudam a diminuir a minha ignorância, mas para mim ainda é um mistério. Por isso, não me sinto confortável em entrar em uma mesquita. Não sei como vai ser, se vou ser bem vinda, se vou ter que ir para uma sala só com mulheres, se vou ter que cobrir a cabeça. Em templo budista e hindu eu entro na boa, mas em mesquitas não me sinto convidada. Pra provar que meu receio não é infundado, tirei foto da entrada da National Mosque em KL: A mesquita não está aberta para turistas não muçulmanos. Nunca vi esse aviso em igrejas ou templos, em lugar nenhum do mundo.

Falando em muçulmanos, fiquei impressionada com o número de mulheres usando burca eu vi em KL, principalmente no nosso hotel. A Malásia é um país muçulmano mas não é radical, as mulheres podem cobrir só o cabelo ao invés do corpo todo, o que me leva a concluir que as mulheres de burca eram turistas. Independente do que elas sejam, como impressiona ver uma mulher toda de preto só com os olhos aparecendo!! Algumas coisas que vi foram marcantes: pai e filho se esbaldando na piscina no calor de 35ºC enquanto a mulher ficava olhando de fora; um cara com duas esposas no passeio à Kuala Lumpur Tower; e como elas comem – no café da manhã não conseguia tirar os olhos delas, que tem que colocar a comida por debaixo do véu, sem mostrar nada (a única vantagem que vejo nisso é poder comer sem se preocupar se ficou um verdinho no dente). Já imaginaram que desagradável?

Bom, depois de três dias em KL, estava sentindo falta de Singapura. Não fui com grandes expectativas, por isso não me decepcionei. Acho que Kuala Lumpur é uma cidade importante na Ásia e gostei de ter visto, mas não é um lugar indispensável.

A não ser que vocês sejam como eu, obcecados em colocar vários alfinetes no mapa múndi!